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29/05/2019

“NÁUFRAGOS DA ESPERANÇA”, UMA ENTREVISTA COM LUCIA HELENA*.

*LUCIA HELENA é uma das intelectuais mais respeitadas da área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas. Recebeu o Prêmio UFF de Excelência Científica concedido pela PROPPI-UFF, em 2009. É pesquisadora 1A do CNPq. Tem se destacado, em suas inúmeras publicações, por uma importante reflexão acerca dos vínculos entre a literatura e a sociedade no mundo atual.

Na próxima segunda-feira, dia 03 de outubro, a Oficina Raquel lança a edição ampliada de Náufragos da esperança. Para essa imensa partilha que recebeu nova versão, Lucia Helena, autora da obra e dona de uma sensibilidade peculiar, concedeu entrevista à Oficina:

por Amanda Damasceno

Amanda Damasceno:  No Brasil, hoje, temos imensos leitores potentes pensando a literatura sob diferentes perspectivas. Como você vê o papel do crítico literário atualmente? 

Lucia Helena: Acho que este é um momento desafiador  para a crítica, por várias razões.

Uma delas, pela pujante publicação de obras de literatura  brasileira contemporânea, em especial na prosa e na poesia, que merecem atenção especial, de leitores aparelhados para a discussão mais aprofundada e suas consequências (positivas) no tecido social;

Em segundo lugar (mas a ordem aqui não é  um fator fundamental), por estar a crítica absolutamente em crise, como tarefa que não é patrocinada  por editoras comerciais, que sabem que o livro de crítica tem uma origem eminentemente acadêmica,  fruto de pesquisas e diálogos em curso nas pós-graduações e há todo um preconceito contra isso, pois os leitores que podem comprar livros,  em geral pertencentes a uma alta ou média burguesia, encontram uma afinidade maior com livros de autoajuda  e que não demandem elucubração maior, em virtude do empobrecimento  do debate, da falta de empenho cultural do fruidor fora do circuito da arte e das letras,  salvo poucas exceções.

Por último,  pela confluência de perspectivas híbridas e de  interdependência entre áreas afins, além dos setores especializados em literatura, o que acresce de novas possibilidades de enriquecimento e renovação o enfoque das obras da literatura nacional e estrangeira em visada comparativa.

AD:   No terceiro capítulo de Náufragos da esperança, o leitor se depara com o “sentimento do fracasso da linguagem e do fracasso da própria existência”. É central a relação entre linguagem e impossibilidade e, nesse sentido, qual é o lugar, ou quais são os lugares, que a literatura ocupa? 

LH: Sem idealizações, a literatura culta, impressa, de circulação entre leitores  mais refinados não tem hoje grande importância na sociedade  midiática da  planetarização. O mercado investe pesado na pasteurização que dá lucro, garante vendas de obras feitas para o mercado.

Por outro lado, a literatura tem e terá, se de boa qualidade (entenda-se por isto um livro que demanda a vontade de ler e reler e revela ao leitor vários patamares de  leitura a cada vez que é relido), um lugar fundamental na sociedade  em que o amor,  o afeto e a ética estão embargados pela violência e carência de oportunidades e esperanças. Sem que alimente ilusões, esta  literatura de qualidade tem a capacidade de agitar a reflexão e a emoção do  leitor fazendo-o crescer em sua cidadania, em sua  sensibilidade e na vontade de atuar por um  mundo melhor. Neste sentido, tenho esperança nos “náufragos da esperança”, nos homens  e mulheres marginalizados no labirinto do mercado e da existência precária e vicária.

A literatura ainda é em nossa sociedade um alento de liberdade das prisões da linguagem e da existência carcomida.

 AD:     Náufragos da esperança é um livro vertiginoso, de muitos diálogos e que mostra, sobretudo, a importância de se refletir com e dentro da literatura. Como foi para você, Lucia, o contato com a primeira edição, e a leitura de si, para entregar ao leitor essa versão ampliada? 

LH: Sim, concordo que Náufragos da esperança põe, vertiginosamente, o dedo em uma ferida fundamental contemporânea: o narcisismo hedonista acirrado pelo mercado, a perversa sociedade do sadismo, que se alimenta da falta de solidariedade com o outro e com a alteridade. Nunca se falou tanto em diferença, em defesa da alteridade e poucas vezes se esmagou tanto o direito de ser diferente. Paradoxalmente, é uma época muito rica na expressão de contingentes e grupos que lutam pelo reconhecimento da diversidade que representam e do direito ao respeito do outro pela diferença que significam.

Penúria e riqueza de possibilidades se juntam nesta fase do capitalismo planetário tornando esta era incerteza um momento também riquíssimo e inquietantemente criativo.

Neste livro tomo como metáfora o desdobramento, não linear, de uma metamorfose: a da ousadia da viagem, como risco e ampliação de perspectivas (boas e más e ambíguas também), no traçado de um imaginário cultural que, do século XVIII ao hoje de modo agudo e arguto, revela  as armadilhas da  razão como algo perigosamente unívoco e instrumental. A literatura de um J. M. Coetzee é uma belíssima conquista do que há de melhor em literatura e reflexão sobre estas questões nas três últimas décadas.

Agradeço a oportunidade de participar do Blog, agradeço as questões estimulantes e, acima de tudo, agradeço à Oficina Raquel, o fato de apostar na segunda edição deste Náufrago da esperança. Entrego ao leitor esta releitura da primeira edição consciente de que os problemas que abordei e sobre os quais publiquei em 2012 a primeira versão desta obra hoje ampliada estão ainda na pauta do que é, para nós, viventes no meio do rodamoinho, uma forma de ser na crise, com a crise e na literatura com a literatura.

Muito obrigada, e que este livro consiga navegar sem naufragar e encontre portos onde ancorar aquilo que faz dos homens e mulheres do todo dia seres fundamentais, já que não desistiram de encontrar (o quê mesmo?) e, lembrando o pré-socrático Heráclito, “se não se espera, como encontrar o inesperado” Acho que esta é a melhor dinâmica dos náufragos da esperança.