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25/11/2019

UM ENCONTRO COM ANNA CLAUDIA RAMOS

 Nascida no Rio de Janeiro, Anna Claudia Ramos é escritora, professora de Oficinas Literárias, graduada em Letras, pela PUC-Rio, e mestre em Ciência da Literatura, pela UFRJ. Atualmente, Anna viaja o mundo afora ministrando palestras e oficinas sobre suas experiências com leitura e escrita.  

Esse mês, seu grande sucesso "Não é bem assim a história" chega à nossa Editora, prometendo grandes emoções a seus leitores. 

                                                                                 

Anna Claudia Ramos

Anna nos concedeu, por e-mail, uma entrevista falando um pouco mais sobre sua rotina, sua vida e seu livro "Não é bem assim a história". Confira:

Oficina Raquel - Você tem algum "ritual" de preparação para a escrita?

ACR: Tenho, mas nunca é igual de um livro para o outro. Cada livro tem seus próprios rituais, suas próprias necessidades. Mas existem coisas que adoro fazer sempre que estou escrevendo ou em processo de escrita, que é ouvir música. Cada livro tem sua trilha sonora específica, que gosto de ouvir enquanto estou começando a “desenhar” a história na minha alma. Fico pensando na história, nos personagens, em quem será o narrador, como será essa história, aonde irá se passar. Fico criando tudo. Quando encontro o narrador, posso começar a história. Se puder, gosto de escrever no meu escritório, que fica no quintal da minha casa, gosto do meu silêncio, de meditar, de me conectar com o mais profundo de mim para que eu possa acessar as histórias desenhadas na minha alma.

Oficina Raquel - Como funciona esse processo? Você escreve um pouco a cada dia? Tem uma meta de escrita diária?

ACR: Minha vida não tem uma rotina muita certinha, porque viajo muito para ministrar cursos, palestras e oficinas. Então, preciso me adaptar a esta rotina sem rotina. Por isso, não tenho uma meta diária de escrita ao longo do ano. Até porque cada livro tem seu processo criativo. Pede um tempo diferente. O que serve para um livro, pode não servir para outro, mas o fato é que quando começo a escrever
mesmo uma nova história eu sou mega disciplinada. Acordo cedo, pratico remo, vou pedalando, só depois que volto começo a trabalhar aqui no meu escritório, que é meu recanto sagrado. Muitas vezes
estou criando e escrevendo a história em mim enquanto pedalo ou remo. Sempre ando celular pra poder gravar ideias se estiver pedalando, mas também ando com bloco de anotações pra não perder as ideias que nascem nestes momentos aleatórios. Gosto de me dar prazos para a escrita, mas nem todo livro cabe neste processo de prazos, alguns pedem um tempo mais fluido, mais longo. Respeito.

Oficina Raquel - Como você lida com as travas da escrita, como a procrastinação, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade?

ACR: No começo, quando lancei meu primeiro livro, morria de medo de não conseguir escrever um novo livro. Se estivesse escrevendo e desse um bloqueio, ficava insistindo sem parar. Claro que não conseguia resolver a questão e ficava frustada. Atualmente, se isso acontecer, entendo que ainda não está na hora daquela história nascer, mas ao mesmo tempo sei que ela não saiu de mim, está lá, guardada na minha alma e em algum momento vai voltar. Enquanto isso, escrevo outras coisas, faço outros trabalhos, leio vários livros, vou ao cinema, sei lá, vou viver, mas ao mesmo tempo, tempo ver o que falta para a história. Coisa boa para destravar é pedalar e praticar yoga. Acesso sentimentos muitas vezes escondidos em mim e que me ajudam na construção de uma narrativa. E aprendi que não posso querer corresponder às expectativas de ninguém, a não ser as minhas. Não posso querer agradar a todos. Nunca iremos agradar a todos, não é verdade? Então, penso que devo ser fiel ao que acredito e penso que devo ser fiel ao que acredito e penso e assim criar as histórias que tenho vontade de escrever.

Oficina Raquel - Qual foi a sua inspiração para escrever "Não é bem assim a história"?

ACR: Histórias reais. Eu sou muito observadora. Fui ouvindo histórias muito diferentes que falavam sobre separações. Ora o pai não era uma pessoa legal, ora a mãe. E apesar de ser mulher e defender os direitos das mulheres, sei que existem homens e mulheres com caráter ou sem caráter. Não gosto de maneira alguma de esteriótipos ou de julgamentos, sobretudo aqueles bem rasos. Então, tentei dar a este livro um caleidoscópio de emoções e olhares sobre o tema separação, sobre os pais, as mães e os filhos, por isso o título Não é bem assim a história, porque as histórias sempre têm muitos lados, depende de quem conta, de quem vive, de quem sente. Cada uma das histórias foi inspirada em histórias reais. Claro que, ao escrever o livro, inventei núcleos familiares que não existiram. Misturei realidade e ficção criando uma história de fundo para costurar os diferentes casos de separação. 

Oficina Raquel - Visto que é um tema super delicado, qual o impacto que você pretende ter sob os seus leitores? O que você espera que eles sintam quando lerem o livro?

ACR: Bem, espero que este livro possa ajudar as pessoas a entenderem que a vida não vem com manual de instrução para aprendermos a lidar com os sentimentos, que temos que aprender à medida que vamos vivendo e os problemas se apresentam em nossas vidas. Espero poder levantar um debate sobre os verdadeiros valores da vida, os aprendizados que temos que fazer, mas, sobretudo, espero trazer à tona um debate sobre respeito às histórias de cada um e como vamos construindo nossos afetos. Como vamos arrumando maneiras de ressignificar nossas histórias, por mais dolorosas que possam ser. Gosto de pensar isso, que podemos sempre ressignificar a vida. Espero que os leitores se emocionem, que reflitam, que riam, que chorem, enfim, que sintam a história. A vida é delicada. Viver não é simples. Um misto de alegria, dor e aprendizados. Tentei colocar tudo isso nesta história que agora chega de volta ao mercado com novidades. 

Oficina Raquel - Como foi para você criar os personagens desse livro? Você se inspirou em alguém?

ACR: Sim, como já disse numa resposta acima, me inspirei em várias pessoas. Algumas são de pessoas conhecidas, que acompanhei de perto o desenrolar dos fatos. Outras, não. Amigos me contaram quando souberam que eu estava escrevendo o livro, ou fui descobrindo porque alguém me contava algo de sua família. Muitas vezes fui misturando as histórias nas quais me inspirei. Mas todas as histórias falam da vida como ela é, cheia de sentimentos controversos. E a história que é narrada como pano de fundo foi totalmente inventada, mas bem que poderia ter existido. 

Oficina Raquel - O que você diria a si mesma se pudesse voltar aos seus primeiros passos na escrita?

ACR: Diria assim: ainda bem que você não desistiu, nem nos momentos mais difíceis, e que você se manteve fiel ao que você acredita ser o seu caminho na escrita. A vida é uma construção. A escrita também. Pede tempo para amadurecer. Em 1992, quando fiz minha estreia como autora, a escritora Ana Maria Machado assinou a quarta capa do livro e me disse que meu texto não falava apenas de uma aventura, mas que era cheio de reflexões sobre a vida e mistérios transcendentais. Até hoje, me recordo dela falando que esse caminho não seria fácil, mas que eu deveria ser honesta comigo mesma e escrever sobre o que me falasse mais alto. Acreditei em suas palavras e segui em frente. E assim tenho feito desde então. Escrevo para falar da vida, dos sentimentos, do direito de cada um ser o que é. Escrevo para falar de temas que dizem respeito à vida e aos sentimentos mais profundos.

Oficina Raquel - O que motiva você como escritora?

ACR: A vida, os sentimentos, as faltas, das dúvidas, as perguntas, os vazios da alma. A possibilidade de sonhar um mundo melhor, mais justo para todos. Escrever é a forma que encontrei de nunca parar de brincar, sonhar e construir mundos novos para morar. 

Oficina Raquel - Por último, mas não menos importante: você poderia recomendar 3 livros aos seus leitores, destacando o que mais gosta neles?

ACR: A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga, meu livro de infância. Demian, de Hermann Hesse, meu livro de adolescência, e Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, de Clarice Lispector, livro que marca minha chegada ao mundo adulto. Estes três livros dividem minha vida em antes e depois de ler estas histórias, porque falaram muito alto para minha alma. Mexeram com meu eu mais profundo de uma forma intensa, falaram para meus vazios, fizeram pensar na minha vida e me permitiram poder morar nas histórias, tentando me encontrar comigo mesma. Recomendo demais a leitura. Mas livro é aquela coisa, né? Nem sempre o que recomendamos o outro vai gostar. Eu poderia ficar aqui fazendo uma vasta lista de livros que marcaram minha trajetória até o dia de hoje. Livros fazem parte da minha vida desde sempre. Já nasci numa casa com livros. Se hoje sou escritora, a leitura de A Bolsa Amarela foi meu primeiro incentivo. 

 

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