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A Oficina Raquel existe desde 2006, e, desde então, vem se afirmando como uma editora independente, comprometida especialmente com literatura e pensamento. Damos muita atenção à dimensão política do pensar, sem que, com isso, assumamos qualquer proselitismo; somos, de qualquer modo, democratas com muita convicção, e é nisso que se baseia nossa ética mais profunda. Transitamos, portanto, pelas veredas por que transitamos: a literatura e o pensamento, com suas muitas, imensas, largas derivas.


Últimas postagens do blog

  • Entrevistando a Sexpert Francesa Maïa Mauzarette

    A sexpert Maïa Mauzarette é colunista do jornal Le Monde e sua coluna é a mais lida do jornal. A Oficina Raquel traz uma coletânea inédita das suas melhores colunas ao Brasil.

    Oficina Raquel: Como você avalia a recepção da sua coluna? Sabemos que este é uma das mais lidas. Mas você acha que as pessoas estão colocando em prática seus conceitos pré-sexuais construídos décadas atrás?

    Maïa Mauzarette: É uma questão difícil: eu não posso (felizmente!) espionar o que as pessoas fazem em sua vida privada (tenho certa ideia de suas práticas em geral, a partir de estatísticas, mas não tenho ainda dados que revelem o impacto de minhas crônicas – o que seria, sem dúvida, divertido). Enquanto espero que eu consiga me teletransportar para o quarto de meus leitores e minhas leitoras, continuo humilde: as representações ligadas à sexualidade são milenares, necessariamente leva tempo para modificá-las. A contracepção data de apenas duas gerações atrás: mesmo que seja apenas para colocar a questão da sexualidade como lazer, tudo é muito novo. Fico às vezes frustrada, é claro, pois eu desejaria que as pessoas que estão entediadas, ou que acham que já tentaram de tudo, se questionassem. Mas também sei, porque recebo muitos e-mails, que as pessoas experimentam e renegociam após minhas crônicas: não uma em particular, mas seu acúmulo, semana após semana. E fico muito orgulhosa disso.

    OR: Durante o processo de tradução e revisão do seu livro, tivemos muitas discussões interessantes e divertidas (muitas vezes online devido à pandemia). O propósito dessas colunas é fazer o leitor pensar levemente sobre as muitas possibilidades quando se trata de sexo?

    MM: É claro ! E funciona. Sei que defendo um ponto de vista minoritário (sou especialista em sexo, não é uma expertise muito comum, e me definiria como muito reservada em relação à monogamia, e francamente queer em minhas utopias) … mas jamais procuro convencer . O que me interessa é a inteligência de leitores e leitoras – que fazem a segunda metade do trabalho, aquela que consiste em se posicionar em relação aos fatos e ideias que lhes ofereço. Eu não acho que estou “certa”. Em sexualidade, de qualquer maneira, o que isso significaria? Por outro lado, acho que proponho uma grade de leitura coerente do mundo (e isso já não é ruim) – uma grade sobretudo alegre e inventiva. Também gosto muito de abrir horizontes, abordar a sexualidade como cultura e não apenas como prática, como algo político e não apenas pessoal… Pode ser arrogante, mas acredito que meu trabalho seja útil. (Na pior das hipóteses, diverte o leitor!)

    OR: Como você acha que está indo a vida sexual das pessoas durante o isolamento social e a pandemia?

    MM: Na França, é muito equilibrado: um terço das pessoas está bem, um terço está infeliz, um terço não mudou seus hábitos. Também é irritante para mim porque nenhuma linha clara se delineia. Por outro lado, o que é interessante é o aumento das desigualdades: casais que já estavam bem estão se saindo melhor, casais que estavam mal estão piorando ainda mais. Solteiros aventureiros continuam suas aventuras, solteiros conservadores não encontram ninguém. A crise funciona como um indicador. Mas ficarei muito feliz quando sairmos disso.

    OR: Você gostaria de mandar uma mensagem para o leitor brasileiro?

    MM: Acima de tudo, gostaria de enviar-lhes minha compaixão: na França, acompanhamos muito as notícias do Brasil diante da pandemia. Não podemos (ainda) nos aproximar e segurar a mão de vocês, e sei que as minhas palavras não pesam, mas pelo menos: não somos indiferentes.

    Confira o livro da Maïa através desse link: https://www.oficinaraquel.com.br/livro/o-sexo-segundo-maia-alem-das-ideias-aceitas/

  • Últimos dias para ter Mentiras reunidas

    A pré-venda de Mentiras reunidas só vai até quinta-feira, 15 de abril. Na verdade, não é pré-venda, mas só “venda”, porque não vai ter venda depois disso. Acabou, kaputt. Ou seja, esse kit específico (capa dura + bolsa + 5 contos exclusivos) vai encerrar na quinta. Vamos ver quantos venderam, imprimir, enviar para os leitores e fãs do Alex e pronto.

    Talvez, no final do ano, saia uma edição brochura, mas aí não será capa dura, não virá com bolsa, não terá esses 5 contos.

    Mentiras reunidas, de Alex Castro, na reta final. Então, quem quiser, compra lá:
    oficinaraquel.com.br/livro/mentiras-reunidas

    No total, o livro contém um romance e 17 contos. Ao longo dos últimos dois meses, Alex Castro postou várias palhinhas. Aqui vão:

    Porque mentir:
    alexcastro.com.br/porque-mentir/

    Primeiras mentiras:
    alexcastro.com.br/primeiras-mentiras/

    E os contos:

    Uma cigarrilha apagada:
    alexcastro.substack.com/p/uma-cigarrilha-apagada-conto

    Te espero no açougue:
    alexcastro.com.br/acougue-conto

    Grandezas de candura:
    alexcastro.substack.com/p/grandezas-de-candura-conto

    Quando morrem os pêssegos:
    alexcastro.com.br/pessegos-conto

    Às vezes, morro:
    alexcastro.com.br/as-vezes-morro

    De portas abertas:
    alexcastro.substack.com/p/de-portas-abertas-conto

    A história de Libeca:
    alexcastro.com.br/libeca

    A cachorra atropelada:
    alexcastro.com.br/cachorra-atropelada-conto

    Como nos velhos tempos:
    alexcastro.com.br/como-nos-velhos-tempos-conto

    E aí, gostou?

    Garanta o seu Mentiras reunidas

  • Por que mentir?

    Tudo é mentira nesse livro: não só os contos, mas os elogios da contracapa e o texto das orelhas, o prefácio e o posfácio, tudo, enfim.

    Se esse exemplar na sua mão tiver uma dedicatória escrita por mim, ela também é mentira. (Toda dedicatória que escrevo é sempre mentirosa: um microconto que invento na hora e escrevo ao vivo. Somente o nome da recipiente é real.)

    Mas por que mentir? Por que escrever dedicatórias apócrifas, orelhas fajutas, biografias falsas? Por que tanto desrespeito à pessoa que está lendo? Por que perder tempo em brincadeiras bobas? Por quê? Para quê? Ou, mais fundamentalmente, no meio de uma pandemia global, para quê escrever ficção?

    Vivemos a Era da Mentira.

    Hoje, temos na presidência do Brasil e dos Estados Unidos dois homens eleitos na base de notícias falsas.

    Por outro lado, essas notícias falsas se tornaram um problema justamente porque as pessoas estão tão céticas que, em seu ceticismo crédulo, acreditam ingenuamente em qualquer teoria alternativa dos fatos.

    Um dos grandes paradoxos dos tempos atuais é que foram exatamente as pessoas mais céticas e cínicas que se tornaram as maiores crédulas e ingênuas. (Antes da pandemia, que roteirista teria incluído em seus filmes uma comunidade de “negacionistas do apocalipse zumbi”?)

    Todos os dias, nas redes e aplicativos, somos bombardeadas por uma saraivada de mentiras, mas não apenas mentiras: mentiras que batem retumbantemente no peito para se proclamar verdades, mentiras orgulhosas de serem as únicas verdades, mentiras que insistem representar a verdadeira verdade.

    Nesse mundo, o que pode ser mais subversivo do que uma mentira que se afirma mentira? Nesse contexto, o que pode ser mais revolucionário do que uma mentira que se gaba de ser mentira?

    Sou bacharel em História. Fui treinado para pesquisar e investigar, descobrindo assim a verdade sobre os fatos do passado.

    Sou escritor de ficção. Passei a vida inteira inventando histórias que nunca aconteceram com pessoas que nunca existiram.

    A verdade está no centro do meu trabalho, seja para buscá-la ou evitá-la. Tudo o que faço profissionalmente diz sempre respeito à verdade, seja reflexão ou discurso, ataque ou defesa, repudiação ou fuga.

    Chamamos ficção de ficção porque não queremos chamá-la por seu nome verdadeiro. Ficção é mentira. Um livro de contos é um livro de mentiras. Mais importante, é um livro de mentiras que nunca te engana sobre o fato de ser um livro de mentiras.

    A leitora distraída, se abrisse esse livro na livraria e lesse somente uma orelha, talvez até se deixasse enganar.

    Mas bastaria ler a outra orelha para detectar a discrepância e sentir o estranhamento. Afinal, ambas se contradizem e se anulam.

    Talvez pensasse que ou uma orelha ou a outra teria necessariamente que ser mentira.

    Talvez se desse conta que poderiam as duas ser mentira.

    Talvez (quem sabe!) pecebesse até mesmo que toda orelha de todo livro é sempre mentira.

    Afinal, o que é uma orelha de livro senão uma narrativa ficcional para criar uma persona vendável ou prestigiosa para a pessoa autora? (Com ou sem foto? Foto de rosto ou de corpo inteiro? Foto na praia ou na biblioteca? Melhor citar os títulos acadêmicos ou os títulos dos livros publicados? As esposas ou os filhos? As viagens ou as falências?)

    Se as orelhas são mentira, o que dizer então dos prefácios e dos posfácios? Dos elogios da contracapa e dos agradecimentos finais?

    E não só desse livro, mas de todos os outros que já li, pensaria a hipotética leitora: esses livros em quem tanto confiei.

    Ou, talvez, distraída e desinteressada, simplesmente colocasse o livro de volta na mesa e fosse comprar um Moleskine.

    ***

    Um editor se recusou a publicar esse livro (chamado Mentiras Reunidas, vamos lembrar) por causa do excesso de mentiras.

    O livro é de ficção, respondi.

    Ora, nas orelhas, na biografia, nos elogios da contracapa não pode.

    Mas por quê? Se o livro é ficção, por que não ser tudo ficção?

    A verdade é que é tudo mentira.

    A mentira é que nada é verdade.

    Alex Castro,
    Copacabana, 6 de janeiro de 2021

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    Alex Castro (1971-2021) não teve filhos.

    Foi melhor amigo de: Dolly (1978-89), Júnior (1990-92), Átila (1993-2002), Oliver (c.2001-14) e Capitu (2014-21).

    Amou e foi amado por: Diane (2001-04), Liloló (2005-10), Vívian (2010-12), Outra Significativa (2012-15), Carolina (2015-18) e Marina (2018-21).

    Escreveu: Mulher de um homem só (2009), Onde perdemos tudo (2011), Outrofobia (2015), Atenção. (2019) e Prisões (2021, póstumo).
  • Oficina do livro na Flip

    Com a crise estabelecida pelo novo coronavírus e a necessidade real de distanciamento social, os grandes eventos literários sentiram-se impelidos a migrar para a internet. Com a Flip não foi diferente, se antes Paraty era o território que desde 2003 a abriga, no contexto da pandemia ele incorpora uma dimensão virtual importante.

    Nesse contexto de Flip Virtual, a Oficina Raquel apresenta a Oficina do Livro. Com a curadoria de Leonardo Neto, editor-chefe da Publishnews e autor do livro 100 nomes da Edição no Brasil e de nossa editora Raquel Menezes, Oficina do Livro falará do mercado editorial para o público em geral. As mesas do evento serão realizadas virtualmente nos dias 08 e 09 de fevereiro através das redes sociais da Flip, como Youtube e Facebook.

    A Oficina do livro tem apoio do Escritório do Livro da Embaixada da França no Brasil e da MVB (Metabooks).

    8/fev

    14h Jornalismo literário
    Maria Fernanda Rodrigues

    Taty Leite

    Richard Gaitet 

    Mediação: Leonardo Neto

    16h Agenciamento literário: os bastidores da aquisição de direitos autorais
    Luciana Villas-Boas

    Cassiano Elek Machado

    Barbara Edun

    Mediação: Leonardo Neto


    18h Livros pra ter, Livros pra ler: o livro como um objeto de desejo
    Daniel Lameira

    Cecilia Arbolave

    Esther Szac 

    Mediação: Raquel Menezes


     9 /fev
    14h O livro nas ruas: as livrarias ocupam as cidades
    Rui Campos

    Monica Carvalho

    Anaïs Massola

    Mediação: Leonardo Neto


    16h Como os quadrinhos leem o mundo
    Maria Clara Carneiro

    Aline Zouvi

    Fabien Toulmé (a confirmar)

    Mediação: Leonardo Neto

    18h Criação: do original ao livro pronto
    Felipe Castilho

    Vagner Amaro

    Raquel Matsushita

    Mediação: Raquel Menezes

  • Oh, margem! Reinventa os rios!

    Oh, margem! Reinventa os Rios!
    Cidinha da Silva
    Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2020.
    126 p.

    Não tinha começado a ler propriamente o texto de Cidinha quando meu olho encheu d’água pela primeira vez, a gente engasga já na carta que abre o livro, de Maria Valéria Rezende. A autora menciona ferida ainda aberta, o assassinato de G. Floyd, embora nenhuma dessas feridas cicatrizem de fato. Como pode a menção a um fato tão conhecido e explorado ainda emocionar? Trata-se de identificação, com o desespero, desesperança, com o abatimento do luto sim, mas, acima de tudo, com a força e esperança de uma sentença “não voltaremos mais para trás!”.


    E esse ir pra frente, a reboque muitas vezes, acontece quando escutamos nossas histórias por nós mesmos, quanto dizemos o mundo tal como o vivemos e nos parece. Esse ir pra frente acontece por meio desta notável tecitura de histórias de Cidinha da Silva.


    São vinte e dois textos divididos ao longo das quatro partes do rio, são histórias do cotidiano, em que por vezes é fácil nos identificarmos, como em “As latinhas”. A escrita é ágil, o olhar arguto, e por meio dele, mesmo nessas histórias por nós conhecidas, é possível perceber as tensões, os incômodos.


    Conhecemos as personagens, por vezes somos essas personagens e ainda assim Cidinha consegue desvelar algo de nós, como se nossa realidade fosse construída por camadas e ela as levantasse e revelasse sua constituição.


    Por vezes os temas são pesados: desigualdade, racismo, morte. Não há como ficar imune, há momentos em que o estômago revira, o sangue ferve e a indignação nos atravessa. É o caso de “Thriller”, a pancada que abre o livro, mas também de “Vocês não estão me ouvindo?” e especialmente de “O lugar de fala de quem se pergunta: em que inimaginável mundo novo vivemos?”, pelo qual nutro acalentada revolta pela distorção de discursos, pela tentativa de deslegitimar e assim calar falas, um modo covarde de matar o ser no mundo do outro.


    Contudo, é preciso ressaltar que isso é só parte do livro, e aqui está o que o torna admirável: homens negros e mulheres negras não se resumem à dor e ao embate com o racismo cotidiano. Aqui temos textos deliciosos, memórias atravessadas de poesia como “Construção” e “A benzedeira”, ou engraçados como “Acabou, Norma! Acabou”, mas nenhum representa melhor esse “vício” de tomar a autoria negra como algo monotemático do que o texto “Solidariedade”, é maravilhoso.


    Destaque ainda para o afluente deste livro, personalidades, criadores negros, que acabam por reforçar exatamente a pluralidade, diversidade de talentos. A surpresa de encontrar menção à Maria Tereza Moreira de Jesus, que tempos atrás, depois de eu ler alguns de seus poemas, tive que procurar muito para encontrar uma única foto da autora, ou de Evaldo Braga, que virou assunto aqui em casa, e ainda o texto sobre Simonal, que nos faz querer conversar mais com Cidinha, e lhe pedir: fale mais sobre isso. Embora esse seja o efeito geral do livro, querer mais dele.

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    Esta resenha foi escrita pelo perfil @as_letras_negras no Instagram